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A HISTÓRIA DE UM CLUBE
1936
Por volta dos anos trinta, as noites de S. João, eram marcadas por grandes festejos, onde moços e moças dannçavam até de madrugada.
Todo o bairro de troino estava em festa. Grandes Fogueiras iluminavam ruas e becos. Aqui e acolá, um pequeno altar iluminado com velas e lamparinas, presta homenagem às imagens de S. António e S. João.
Pequenos foguetes e bombas de S. António são lançados nas fogueiras, esguichando por todo o lado zumbidos e faúlhas.
Ao som de velhas cantigas, as horas vão caindo lentas e compassadas. À volta das fogueiras continuam os bailaricos de roda e xarem. A noite avança e as pessoas de mão dada seguem em bicha. Por cada rua que passam junta-se mais uma roda. Começa então o lento caminhar de uma multidão enorme em direcção à serra de Brancanes para ver nascer o sol. Os grupos vão subindo a serra e acampam com pequenos farnéis para se refazerem de energias perdidas de uma noite de folia.
Lá vem a madrugada
Lá vem lá vem
Lá vem a madrugada
Que graça tem
E vem dar vivas
A toda a gente
Lá vem a madrugada
Toda contente
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Quando o sol começa a nascer, é a nota mais encantadora de toda a noite de folia. Toda a serra parece agitar-se e de centenas de bocas, vão saindo exclamações de alegria e louvor ao novo dia.
Tudo é luz e cor, o sol que deve nascer bailando, cumpre a tradição do dia de s. João.
Quando finalmente está no alto, uma exclamação sai de todos os lábios exprimindo a satisfação.
Depois , começa a descida serra abaixo para regresso á cidade. Morrem pouco a pouco os rumores da multidão que se reparte pelas ruas.
A serra, agora só, retoma o seu silencio sob a luz doirada do sol que sobe no alto.
No ano de 1936, a câmara municipal de Setúbal, promove e subsidia a organização de comissões de bairro, as quais decidiam todos os pormenores indispensáveis a uma festa verdadeiramente popular. As marchas populares.
É assim que grupos de moradores do nosso bairro tomam a iniciativa de ao som de quadras musicadas, desfilar pelas ruas da nossa cidade com trajes típicos de cultura e costumes distintos. Nascem assim as primeiras marchas de Setúbal, que são as seguintes:
- Marcha dos olhos d’água; - Marcha da rua direita; - Marcha da travessa da saúde; - Marcha do largo das machadas; - Marcha do largo da portuguesa.
Ao mesmo tempo das marchas, que iriam desfilar pela primeira vez na noite de 23 de Junho de 1936, os moradores dos bairros são convidados a enfeitar as suas ruas, as comissões recebem o apoio da câmara municipal com o fornecimento da iluminação, mastros e bandeiras.
No bairro libertário, (sitio da Palhavã) Freguesia de Nª Sª da Anunciada, também é criado uma comissão que enfeita a rua José Carlos da Maia (cruzamento da rua da herdade com a rua das Oliveiras, até á fonte de S. Francisco). Os seus organizadores:
Felix Santana, João Rodrigues, Manuel Nabiça, Eduardo Reis, João das Dores, Adelino Bangué, decidem a 22 de Junho 1936, na taberna do nabiça, na rua José Carlos da Maia n.º 88, transformar a comissão num grupo organizado dando o nome de rancho folclórico da palhavã, tendo como patrono S. João.
Entusiasmados com a saída das marchas que desfilaram na noite de 23 Junho, desde a Av. Luisa todi, até ao campo atlético do vfc, decidem concorrer no ano seguinte.
Os ornamentos, arcos e ensaios, são feitos numa casa existente na rua José Carlos da maia nº146 – 1º andar, considerando-se assim a sua primeira sede.
Em 1937, sai a sua 1ª marcha,
 Marcha Popular 1937 |
Que desfila nas ruas da cidade, com letra de António Alves da mota e musica de Emílio ferreira.
| Marcha de desfile |
No sitio da Palhavã,
Sabemos todos amar,
Ceifamos desde manhã
Vimos da ceifa a cantar.
A mais esbelta ceifeira
Marcha formosa e louça,
Bem alegre e prazenteira – bis
Na marcha da Palhavã
Estribilho
O santo antónio vem
A’luz deste luar
Para ver muito bem
Quem é que vai casar
Oh! Lindas raparigas,
Unidas bem aos pares,
Entoemos cantigas
Aos santos populares!
Dentro do coração
A luz nos alumia,
S. Pedro e s. João
Dão ambos alegria!
Rapazes da beira Sado,
Deste rio da cor do céu,
O nosso canto elevado
Há-de ganhar o troféu.
Nossa paixão é sincera,
O nosso amor é leal,
Papoila na primavera – bis
Só é linda em Portugal!
Estribilho
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O santo António vem
A’luz deste luar
Etc.
Nosso trigo há-de ir á serra,
A triturar no moinho,
Belo pão da nossa terra,
Que encontramos no caminho!
Da nossa linda seara
Ceifámos o lindo trigo...
Meu amor por tua cara - bis
Eu hei-de casar contigo.
Estribilho
O santo António vem
A’luz deste luar
Etc.
Nosso trigo é muito loiro
Ceifado por nossa mão,
Meu amor és um tesoiro
Dentro do meu coração.
S. João dá-me alegria
E cantar de rouxinol,
Vamos ver nascer o dia - bis
Vamos ver nascer o sol.
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O espaço começa a ser curto e há necessidade de procurar novas instalações.
Devido a grandes influencias na zona, do Sr. Félix Santana, conseguiu-se as antigas instalações da fábrica de conservas santa Rita, (na rua do castelo prolongamento) que tinha sofrido um incêndio por volta de 1932.
O entusiasmo e o amor pelo colectivismo, levam os dirigentes de então a remodelar as velhas instalações.
Foram tapados com estrados de madeira, os velhos pios e o tecto coberto com canas.
Nascia assim a sua definitiva sede.
 Aspecto com que ficou a velha fabrica depois das obras improvisadas. |
 A Direcção em 1938 |
Em 1938, a marcha volta a sair causando grandes simpatias. Surgem convites para exibição em vários locais.
 em exibição no Sanatório do Outão 1938 |
Saltita neste bailado,
Minha pombinha saltita,
Teu rosto fica rosado,
A tua cor mais bonita.
A brisa do nosso rio
Faz tão bem a quem suspira!
Cantas bem ao desafio,
Mas melhor danças o vira.
Canto bem alto sem medo,
Estas cantigas p’ra ti,
Entre nós não há segredo
Que não possa vir aqui.
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No mesmo ano, é realizado no coliseu dos recreios, em Lisboa, o concurso “o cacho dourado”, que tem por tema “a festa da vindima”, e a Palhavã é convidada a participar em representação do moscatel de Setúbal.
Estão em concurso várias marchas de Lisboa, obtendo o rancho recreativo da Palhavã, o honroso 2º lugar...
Bate certo, puladinho o bailarico,
Em louvor do nosso vinho moscatel
De Setúbal, o bom vinho que é tão rico,
Que é tão doce, com sabor e cor de mel
Participaram também, como figurantes, no filme português “a aldeia da roupa branca”.
 Em colaboração com outras colectividades |
O clube começa a expandir-se e a afirmar-se. Há necessidade de garantir a sua fixação.
O Sr. Pedro Monteiro, dirigente na altura, compra em 1945, por 18000$00, a Emília veiga mendão, o velho edifício. O clube fica a pagar-lhe em prestações.
Agora é necessário proceder a melhoramentos.
Em 1947 a remodelação está feita.
É realizado um grandioso baile para a sua reabertura.
Em 1948 sai no diário do governo o registo dos estatutos com o nome de clube recreativo Palhavã.
São seus dirigentes:
Ass. Geral
Joaquim Bandeira
Manuel Nascimento
Acácio Pacheco
César Marques
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Direcção
Pedro Monteiro
Tavares da Silva
Ilídio Machado
augusto Teixeira
Eduardo Liberato
Sebastião Pinto
Agostinho Fernandes
Luís Valido
Mário Carvalho
António Lopes
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Conselho Fiscal
Carlos Tia
Luís Santana
Manuel Brito
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 Janeiro de 1948 |
Com a nova sede e os estatutos aprovados, os dirigentes dedicam-se agora a renascer a colectividade, divulgando a cultura e o desporto.
Nas noites de sábado realizam-se grandiosos bailes de convívio entre os seus associados.
Programas de variedades, cegadas carnavalescas, fados, revista à portuguesa, e espectáculos de solidariedade, são uma constante.
Nas marchas, continua a marcar presença em todos os desfiles.
No desporto, merece realce especial as equipas de andebol, futebol de onze, natação e atletismo, tendo a nível nacional, obtido inúmeros êxitos, com lugares no pódio.
 Equipa de Futebol |
 Equipa de Atletismo |
Os anos 50 foram marcados por grandes êxitos no desporto.
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| Marcha popular 1956 |
A marcha da Palhavã, estribilho
È mais linda, mais garrida,
Mais alegre e folgazão
E parece ter mais vida;
Nosso bairro está em festa,
Setúbal não deve ter
Outra marcha como esta
Pode ser a mais modesta,
Mas melhor não pode haver!
peso...
estribilho
Esta marcha é minha,
Minha e do meu bem!
Sabem lá a «linha»
Que esta marcha tem!?
De balão aceso,
- basta que eu diga -
Esta marcha manda peso ...
E o resto é cantiga
A marcha segue contente,
Vá de roda, raparigas,
São filipe vem co’ a gente
E o troino arranja cantigas!
Ligeirinhas passo, a passo,
Com seus arcos e balões,
Unidinhas num abraço...
Marcham todas ao compasso
Do bater dos corações!
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Esta marcha é minha,
Minha e do meu bem!
Sabem lá a «linha»
Que esta marcha tem!?
De balão aceso,
- basta que eu diga -
Esta marcha manda peso ...
E o resto é cantiga!!
agora o mais engraçado,
È constar que desta vez,
até anda o velho sado
A bailar com as marés
e por onde a marcha passa,
desta vez, não há ninguém;
Que não diga até por graça:
«palhavã, fez-nos pirraça,
mas que linda que ela vem !!
estribilho
Esta marcha é minha,
minha e do meu bem!
etc. Etc. ...
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Conforme consta na acta n.º 96 da reunião de direcção, realizada em 6/11/56, com a presença dos Srs. Mário carvalho, luís santana, ilidio machado, mário rodrigues, victor ricardo peixinho e álvaro neves, é dado plenos poderes ao presidente da direcção, (mário carvalho) para fazer a compra efectiva da sede.
A 24/11/56, é feita a escritura em nome do clube recreativo Palhavã, tendo assinado como testemunha, o Sr. luís Santana.
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Espectáculo de variedades e fados, dedicado aos seus sócios e familiares.
Por volta de 1960, depois de uma noite de espectáculo, o tecto da sede ruiu.
O clube, agora sem sede, passa a funcionar provisoriamente no pavilhão da c. M. S., no parque das escolas.
 Inauguração do Estádio do V.F.C. |
Com muitas dificuldades financeiras e a sede em ruínas, não deixa de participar nos principais eventos da cidade.
 Equipa de Natação |
 Equipa de Andebol |
O esforço para manter viva a colectividade é enorme. Os seus dirigentes procuram desesperadamente recuperar a sede.
Em 1962, é encontrada a solução. O clube entrega o terreno (1020 m2) para se fazer um edifício de 4 andares, e recebe o r/c (420 m2) com uma sede feita de raiz, com todas as condições para espectáculos.
 Marcha popular 1968 |
É solicitado autorização para este projecto, sendo aprovado em reunião de câmara no dia 19/2/64.
Mais tarde, é assinado entre o clube rec. Palhavã, (luís Santana) e António conde rosa pereira, (empreiteiro) o contrato de promessa de permuta, para se iniciar as obras.
Em Janeiro de 1971, para poder concretizar o negócio, (venda dos 4 pisos) tem que oficializar o contrato de promessa.
A escritura é feita, e o Sr. empreiteiro como tinha hipotecado no montepio geral, todo o r/c e aproveitando-se da inocência e honestidade dos dirigentes, não faz constar que tem de devolver fosse o que fosse.
Na primavera de 1971, é entregue ao clube, a sua nova sede, com a promessa de fazer brevemente a escritura.
A partir de 25 Abril de 1974, as direcções que vão passando pelo clube, fazem pressão sobre o empreiteiro para legalizar a sede, não conseguindo mais que promessas.
Em 1987, o Sr. Joaquim Lucas, compra em hasta publica, ao montepio geral, as instalações do clube, dando em seguida ordem de despejo.
O c. R. Palhavã recorre a um advogado, o Sr. Arnaldo marques da silva, que gratuitamente desenvolve todo o processo para recuperação da sede.
Com poucas hipóteses e o julgamento marcado para o dia23/1/95, um acordo, com a ajuda da câmara municipal Setúbal e o governo civil, viria a permitir a recuperação definitiva da sede. É entregue ao Sr. Joaquim Lucas, a quantia de 7000 contos.
Este processo tem o seu final com a escritura feita em 7/9/99.
 Escritura da Sede, Setembro 1999 |
Entretanto, com a revolução de Abril, a colectividade entra numa nova era e passa a desempenhar a sua verdadeira função junto das populações.
Constam nos seus programas de actividades, o desporto, com varias modalidades e a cultura, com a criação de grupos cénicos, não esquecendo os momentos recreativos, como as passagens de ano, Carnaval, bailes da pinha, etc.
Em 1988, o pelouro da cultura da câmara m. Setúbal, (Dr. Paula costa) faz reviver as marchas populares em Setúbal.
Tendo nas marchas a sua origem, o c. R. Palhavã não podia faltar à chamada. Foram oito, as marchas em concurso:
C. R. Palhavã, grupo desportivo “os13”, s. M. Capricho setubalense, s. F. União setubalense, ídolos da praça, praias do sado, união praiense, e bairro da bela vista.
 Marcha dos Golfinhos |
Em 1990, leva à cena, a revista “toma lá sardinhas” que foi um êxito, sendo repetido em 1992 com “duas seguidas”.
 Revista levada, em 1990 |
E mais tarde, em 2001, com “o canal 18”.
 Convívio entre associados |
 A loja do Tio Cavaco |
Pelo Carnaval, realiza as tradicionais cegadas, como “a loja do tio cavaco” e “a tasca do bigodes”, em conjunto com os tradicionais bailes, que terminam
Com o enterro do Carnaval.
 No corso do Montijo 1998 |
 Criação de Escolinhas |
 Marcha "Os Ardinas" 2001 |
1º classif. Na coreografia, 1º classif. Na letra,
2º lugar na classificação geral
Palhavã passa a cantar
Deixa perfume no ar
Um cheirinho de giesta
No seu jeito endiabrado
Lembra coisas do passado
E vai animar a festa
É bonita e brejeira
Danada p’rá brincadeira
Vai mostrar a sua graça
O são joão é lembrado
E será sempre cantado
Quando esta marcha passa
refrão
Cantam raparigas
Há no ar cantigas
Batem corações
Musica a tocar
A marcha a passar
Com arquinhos e balões
Ardinas, jornais
Festões arraias
Pelo são joão
Está bonita a lua
baptista
Há povo na rua
Revivendo a tradição
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Palhavã está na rua
a fazer inveja à lua
não há outra como esta
nesta noite de alegria
tanta luz parece dia
setúbal está em festa
traz um arco e um balão
como manda a tradição
em casa ninguém ficou
no bater do coração
a despertar emoção
e toda a noite dançou
refrão
cantam raparigas
há no ar cantigas
etc. Etc. ...
Letra: Idaliano
Musica: Artur Jordão
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Estas imagens, com 66 anos, são reveladoras do entusiasmo e alegria, próprias de uma juventude que soube transmitir às gerações vindouras, o valor da união e da amizade, que fizeram do clube recreativo Palhavã, um marco na história da nossa cidade.
Textos elaborados por ANTÓNIO CARVALHO.
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